Trilha da Superação

Em 2023, realizei uma viagem inesquecível pela Patagônia Argentina. Cada momento foi especial, mas uma experiência em particular se transformou em uma das maiores aventuras da minha vida: a trilha até a Laguna Esmeralda, em Ushuaia.

A frase que ganhou vida

“A felicidade é o caminho e não a chegada.”

Já tinha lido essa frase inúmeras vezes, mas foi ali, caminhando entre pedras, lama e árvores tombadas pelo vento da Patagônia, que compreendi seu verdadeiro significado. Na trilha para a Laguna Esmeralda, eu experimentei a felicidade de estar em movimento, mesmo diante dos desafios.

Lama, neve e a força do vento

Era final de outubro, primavera no hemisfério sul. Mas, por conta das mudanças climáticas, enfrentamos uma nevada fora de época na véspera da trilha, seguida por muita chuva. O resultado: lama por todos os lados.

A trilha em si já é desafiadora, com trechos acidentados, árvores caídas, subidas e descidas íngremes. Mas no início, tudo era encantamento, até que, depois de três horas de caminhada, a guia anunciou que ainda faltava uma hora e meia até a laguna.

Confesso: quase desmoronei.

Eu estava cansada, sem coragem para continuar e preocupada com o caminho de volta. Minhas companheiras tentaram me animar, mas decidi ficar ali e esperar por elas. Afinal, eu não me sentia segura para retornar sozinha.

Sozinha no bosque

Sentei-me em uma pedra grande, cercada por neve, silêncio e uma beleza quase sobrenatural. Mas aquele cenário também era assustador. Comecei a sentir frio e vesti minha jaqueta corta-vento e as luvas.

De repente, ouvi um som estranho, parecia que algo grande se aproximava. Fiquei paralisada pelo medo. Foi então que percebi que era o vento passando entre as folhas. Me senti aliviada e até meio boba. Como uma menina criada em São Paulo poderia reconhecer aquele som?

A decisão de voltar

Depois de quase uma hora sozinha, decidi mandar mensagem para o outro guia do grupo, que nos aguardava no carro. Felizmente, a internet funcionou. Relatei meu medo de ficar ali por mais tempo. Ele me incentivou a voltar e sugeriu que eu tentasse acompanhar outras pessoas.

Compartilhei minha localização com ele e comecei a retornar, agora sozinha, mas confiante.

Um caminho de superação

A volta foi difícil, um verdadeiro teste físico e emocional. Cada passo exigia atenção. A lama, os obstáculos, o medo de cair. Mas eu fui encontrando força onde nem sabia que existia.

Aprendi a observar com mais atenção, buscar atalhos, contornar trechos mais perigosos. Quando achei que não aguentaria, lembrava que o mais importante era seguir, passo a passo.

O tombo e o “anjo”

Em certo momento, cheguei a uma passarela de madeira: um alívio! Mas logo no início dela, tropecei. Caí de joelhos, a mochila veio parar sobre a minha cabeça. Fiquei atordoada.

Foi então que ouvi uma voz feminina perguntando, em espanhol, se eu precisava de ajuda. Senti sua mão me levantando com gentileza. Ela ajeitou minha mochila e perguntou se eu conseguiria seguir. Eu disse que sim.

Quando me virei para agradecer, ela já havia desaparecido.

Senti um arrepio. Sim, era um anjo. Só Deus sabia o quanto eu estava tentando me manter firme. Aquela ajuda foi um sinal claro de que eu não estava sozinha.

O susto final

Já perto do fim, me deparei com um trecho asfaltado. Peguei o celular para tirar a “foto da vitória”, mas recebi uma mensagem do guia: eu havia entrado em uma propriedade privada usada para criação de cachorros de trenó. Comecei a ouvir latidos ao fundo.

Ele me alertou: os cães são perigosos, também usados como cães de guarda. Meu coração disparou. Saí dali o mais rápido que pude, escalando uma ladeira até chegar à estrada.

A chegada (sem ter chegado)

Depois de quase sete horas de caminhada, finalmente cheguei ao carro. Estava exausta. Mas, ao mesmo tempo, sentia uma felicidade indescritível.

“A felicidade é o caminho e não a chegada.”

Não cheguei à Laguna Esmeralda, mas conquistei algo ainda maior: superei sozinha desafios que jamais imaginei ser capaz de enfrentar.

Voltei ao hotel com o coração leve, um sorriso no rosto e a certeza de que sou mais forte do que pensava.