Há viagens que nos encantam de imediato, e há aquelas que nos transformam aos poucos, com impacto, desconforto e reflexão. Foi assim no Cairo. Neste relato, compartilho o que vivi, senti e descobri durante minha passagem por uma das cidades mais intensas que já conheci.
Primeiras impressões desconcertantes
Em meu primeiro dia na cidade, o burburinho me incomodou, as buzinas em excesso, a pobreza a olhos vistos, os perfumes fortes, tudo isso me fez pensar que não iria gostar do lugar, que eu iria dar um check nos monumentos históricos e só.
No dia seguinte, com vários lugares para conhecer, não teve jeito, tive que suportar esse ambiente caótico e tão diferente da minha realidade.
Um encontro inesperado na Mesquita
Então, ao visitar uma Mesquita, fui abordada por crianças querendo saber de onde eu era, se eu falava inglês para podermos conversar. No início estranhei, claro. Mas depois percebi a pureza no olhar deles, que se encantam com a presença de estrangeiros em seu país. Nos olham como se fôssemos especiais, talvez pensem que somos ricos, celebridades, sei lá…
Olhares pelas ruas do Cairo
Mais tarde, dentro do carro, enquanto percorríamos as ruas da cidade, observei um pouco da rotina sofrida das pessoas e a dificuldade para conseguir o sustento. Depois, caminhando pelas ruelas, encontrei sorrisos generosos, presenciei manifestações de fé e em vários momentos me senti feliz no meio daquela gente.
Passei a admirar a resiliência dessas pessoas que não conseguem lutar contra um sistema vicioso e que, em sua esmagadora maioria, nascem e morrem nessa cidade, sem perspectiva nenhuma de mudança.
A Cidade dos Mortos: realidade que fere
Chegou a noite e veio a maior surpresa, fomos visitar a Cidade dos Mortos.
O que é esse lugar? Pensei. Então, aos poucos o carro foi adentrando um cemitério, sim um cemitério, onde os refugiados da guerra vivem.
Eu nunca soube da existência desse lugar e fiquei confusa diante de sentimentos diversos. A realidade alí é cruel. Pessoas vivem em mausoléus, em condições precárias e sem expectativa de mudança. Não é algo provisório, elas não têm para onde ir e ali ao menos tem um teto sobre suas cabeças.
Vi crianças brincando nas ruas escuras e vi também barzinhos com cadeiras na calçada e música tocando alto naquele lugar que deveria ser silencioso e tranquilo.
Viver entre os mortos
O guia nos explicou que as famílias, donas desses mausoléus, concordam que as pessoas vivam ali, por uma questão de humanidade. Porque entendem a situação.
E não pense que é pouca gente sobrevivendo nessa condição. Aproximadamente, 1 milhão de pessoas vivem na Cidade dos Mortos, em condições sub-humanas, grande parte deles não têm eletricidade ou água potável.
O que vi ali me deixou confusa e muito triste. Vai demorar um tempo para eu conseguir absorver tudo isso. Ainda hoje, ao reler esse texto e relembrar aquelas cenas, me vem um nó na garganta.
O contraste do Centro Velho do Cairo
Saímos dalí e fomos conhecer o Centro Velho do Cairo.
Famílias inteiras passeavam pelas ruelas cheias de luzes e música alegre. Foi um contraponto à visita anterior.
Depois de caminhar um pouco entre os locais, me senti um pouco mais animada, mas muito mexida com tudo que vivenciei naquela noite.
O adeus que ficou atravessado
O Cairo me incomodou, num primeiro momento, e me impactou profundamente.
Deixando a cidade no meio da madrugada e, olhando as ruas vazias, me bateu uma tristeza e a vontade de não dizer adeus.
Fiquei com a sensação de que deixei algo por fazer. Como se eu pudesse fazer alguma coisa, qualquer coisa para ajudar aquelas pessoas.
Refletindo um pouco mais, cheguei à conclusão que não posso fazer nada, não tenho esse poder, infelizmente.
Então, só me restou dizer adeus, ou quem sabe, um até breve.

